Quinta, 15 de outubro de 2026, 23:44
Saúde

Oncologista alerta para câncer de mama em mulheres jovens

Estudo com mais de 52 mil pacientes aponta desigualdades sociais e raciais.

Quase metade das mulheres brasileiras de 15 a 39 anos diagnosticadas com câncer de mama entre 2000 e 2023 recebeu a confirmação da doença em estágio avançado. É o que aponta um estudo publicado na revista científica Clinical Breast Cancer, que analisou dados de 52.734 pacientes e identificou que 48,2% dos casos foram diagnosticados nos estágios III ou IV. 

  

Câncer de mama: estudo revela desafios. 
   

Os resultados chamam atenção para a necessidade de ampliar a conscientização sobre a doença entre as mulheres jovens, que não fazem parte da faixa etária contemplada pelo rastreamento mamográfico de rotina. Nesse grupo, o reconhecimento de alterações nas mamas e a procura por atendimento médico são fundamentais para que os casos suspeitos sejam investigados. 

A médica oncologista da Oncologia Américas, Aline Gonçalves, explica que a ausência de mamografias periódicas nessa faixa etária torna ainda mais importante a atenção aos sinais da doença. 

“É muito importante a gente conscientizar as mulheres jovens que alterações de autoexame, alterações na mama, elas devem, sim, se atentar e procurar por atendimento médico e seguir uma investigação, se for necessário”, orienta. 

Segundo a especialista, a ideia de que o câncer de mama atinge principalmente mulheres mais velhas pode contribuir para que as mais jovens não considerem a possibilidade da doença. Embora a incidência seja maior em idades avançadas, ela ressalta que o câncer também pode ocorrer antes dos 40 anos. 

Aline também destaca que a rotina profissional e as responsabilidades familiares podem dificultar a busca por assistência médica. Mulheres que trabalham e cuidam de filhos pequenos, por exemplo, podem adiar consultas e exames, o que reforça a importância de ampliar o acesso aos serviços de saúde. 

Desigualdades sociais influenciam o diagnóstico 

O estudo também identificou diferenças relacionadas à raça, à escolaridade e ao acesso aos serviços de saúde. Mulheres pretas e pardas, com menor nível de escolaridade e encaminhadas pelo sistema público apresentaram maior probabilidade de receber o diagnóstico em estágios avançados. 

De acordo com Aline Gonçalves, os resultados demonstram a necessidade de considerar as condições sociais que interferem no percurso das pacientes até a confirmação da doença. A médica ressalta, entretanto, que o levantamento não permite estabelecer uma causa específica para o diagnóstico tardio de cada mulher. 

“Essas associações reforçam a importância de enfrentar as desigualdades no cuidado”, afirma a oncologista. 

Na avaliação da especialista, fatores como dificuldades de transporte, impossibilidade de faltar ao trabalho, responsabilidades domésticas e acesso limitado à informação podem representar obstáculos à procura por atendimento. Ela acrescenta que informar a população é apenas uma parte da solução: os serviços de saúde também precisam estar preparados para acolher as pacientes, investigar as queixas e garantir o início do tratamento no tempo adequado. 

A médica destaca que a identificação precoce do câncer de mama aumenta as chances de cura e pode permitir tratamentos menos agressivos. Esse benefício, segundo ela, independe da idade da paciente. 

Outubro Rosa precisa incluir mulheres jovens 

Para Aline, as campanhas do Outubro Rosa devem abordar de maneira mais explícita a possibilidade de câncer de mama em mulheres com menos de 40 anos. Ela defende que as ações diferenciem o rastreamento de rotina da investigação de sintomas suspeitos, que deve ocorrer independentemente da idade. 

“Eu acredito que no Outubro Rosa a gente precisa ir muito além da informação. A gente precisa também mostrar para as mulheres, independente da idade, como buscar o atendimento”, afirma. 

A oncologista também considera necessário orientar as mulheres sobre onde conseguir consultas, exames e biópsias, além de preparar profissionais de saúde não especializados em oncologia para reconhecer sinais que possam indicar a doença e encaminhar as pacientes para avaliação adequada. 

Aline ressalta ainda que o histórico familiar de câncer de mama ou de ovário e a possibilidade de risco hereditário devem ser considerados na avaliação individual de cada mulher. 

Os dados do estudo reforçam que a conscientização precisa estar acompanhada de condições efetivas de acesso à saúde. Para as mulheres jovens, reconhecer alterações nas mamas e buscar avaliação médica são medidas importantes, enquanto a rede de atendimento deve garantir que as suspeitas sejam investigadas sem atrasos desnecessários. 

Link do estudo: https://www.clinical-breast-cancer.com/article/S1526-8209(26)00144-8/fulltext

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