Certa vez, publiquei uma receita e alguns comentários surgiram, gerando discussão. Entre eles, a frase se repetia: "esse prato é nosso...".
Essa reação revela uma ideia bastante difundida de que determinados pratos pertencem exclusivamente a um território. Acontece com a Maria Isabel, com a moqueca, com a feijoada, com o baião de dois, com a carne de sol... e, muito provavelmente, continuará acontecendo.
Mas a cozinha não se desenvolve obedecendo às fronteiras políticas. Ela acompanha os deslocamentos humanos, as rotas comerciais, a disponibilidade de ingredientes, o clima, as técnicas e os modos de fazer que atravessam gerações.
Um prato pode, sim, tornar-se símbolo de um território e, ao mesmo tempo, integrar a cultura alimentar de outros. Essas duas realidades não são incompatíveis. Pelo contrário, revelam a dinâmica própria das tradições culinárias, que se transformam, circulam e se ressignificam ao longo do tempo.
A Maria Isabel ilustra bem essa discussão. Sua trajetória está profundamente associada ao Piauí, onde foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. Esse reconhecimento, no entanto, não significa exclusividade. O prato também faz parte da cultura alimentar de regiões vizinhas, onde assumiu características próprias.

Sou maranhense e cresci comendo Maria Isabel. É um prato que faz parte das minhas memórias afetivas: lembro da panela preparada pela minha avó, do comer de capitão e das refeições em família. Por isso, nunca o vi como um prato "emprestado", mas como algo que sempre pertenceu à minha vivência e à minha cultura alimentar.
Ao mesmo tempo, reconheço plenamente sua importância como um dos grandes símbolos da gastronomia piauiense. Uma coisa não invalida a outra.
O fato de um prato representar a identidade de um estado não significa que ele não exista, há muito tempo, em estados vizinhos, nem que não possua diferentes versões. A própria Maria Isabel também integra a culinária do Ceará, além de aparecer em outras regiões do Nordeste, adaptando-se aos ingredientes disponíveis, aos modos de preparo e às tradições locais.
Ainda neste sentido, a moqueca talvez seja o exemplo mais conhecido: Bahia e Espírito Santo possuem versões consagradas, distintas entre si e igualmente legítimas. O mesmo ocorre com a feijoada. A carioca difere da baiana, e ambas expressam histórias, influências e contextos culturais próprios.
É justamente essa capacidade de adaptação que mantém a gastronomia viva. As cozinhas dialogam entre si, atravessam fronteiras, incorporam influências e constroem novas identidades sem apagar as anteriores.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja "de quem é esse prato?", mas como ele passou a fazer parte da história de tantos lugares?
Receitas viajam. Pessoas migram. Ingredientes circulam. Técnicas são compartilhadas. E, junto com tudo isso, também circulam memórias afetivas.
A riqueza da gastronomia nunca esteve na exclusividade, mas na diversidade de histórias que um mesmo prato é capaz de contar.
Por Amandha Silveira – Gastróloga, Sommeliére e colunista de gastronomia
Instagram: @amandhassilveira | www.amandhasilveira.com.br
Dê sua opinião: