Muito antes da gastronomia se tornar tendência, espetáculo ou fotografia para redes sociais, Jean Anthelme Brillat-Savarin já defendia uma ideia revolucionária: comer é um ato cultural, sensorial e profundamente humano.
Autor de A Fisiologia do Gosto, Savarin não tratava apenas de receitas ou do luxo associado à mesa. Para ele, o prazer de comer ultrapassa a simples satisfação da fome e manifesta-se na experiência completa da refeição — nos aromas que despertam memórias, na conversa compartilhada, no tempo dedicado ao preparo e no cuidado presente no ato de receber.
Nesse contexto, é importante destacar que alimentar-se diferencia-se de comer. Alimentar-se refere-se, primordialmente, à necessidade biológica de suprir o organismo e satisfazer a fome. Comer, por sua vez, envolve dimensões culturais, sociais, afetivas e sensoriais que ultrapassam a função nutricional do alimento. O ato de comer relaciona-se à memória, aos símbolos e às formas de convivência construídas em torno da refeição.
O prazer de comer é essencialmente sensorial. Está na crocância de um pão recém-assado, na acidez equilibrada de um vinho, na profundidade de um molho preparado lentamente e no conforto emocional despertado por determinados sabores. Comer envolve memória, afeto e identidade. Algumas receitas nos transportam imediatamente para a infância; outras nos apresentam novos repertórios e vivências.
Essa dimensão cultural e afetiva do comer também se manifesta na experiência da mesa, que possui caráter relacional e simbólico. Ela se expressa na mesa posta com intencionalidade, no ritual de reunir pessoas e na pausa em meio à velocidade cotidiana.
Ao compreender o ato de comer para além de sua função biológica, Savarin reconhecia que a mesa exerce funções que ultrapassam a alimentação: aproxima, civiliza e fortalece vínculos. Não por acaso, grande parte das celebrações e encontros mais significativos da vida acontece em torno da refeição.
Em tempos de refeições apressadas e consumo automatizado, a gastronomia assume também o papel de resgatar a importância da vivência atenta à mesa. Comer bem não está necessariamente associado ao excesso ou à sofisticação superficial, mas à atenção dedicada aos sabores, aos processos e às relações construídas em torno da refeição.
Uma refeição simples pode tornar-se memorável quando existe cuidado em sua elaboração e serviço. Da mesma forma, preparações sofisticadas perdem parte de seu valor quando desvinculadas do cuidado e da hospitalidade. Nesse sentido, o refinamento gastronômico não se restringe ao uso de ingredientes de alto custo ou à execução técnica, mas à capacidade de transformar o ato de comer em uma experiência sensorial, cultural e relacional.
Jean Anthelme Brillat-Savarin dizia: “O prazer da mesa pertence a todas as idades, a todas as condições, a todos os países e a todos os dias.” A frase permanece atual porque nos lembra que a gastronomia não se limita ao alimento em si, mas envolve também formas de sociabilidade, percepção sensorial e construção de experiências ao redor da refeição. Nesse contexto, a mesa posta deixa de ser apenas um recurso estético ou protocolar e passa a integrar a experiência gastronômica como elemento de hospitalidade, acolhimento e valorização do momento compartilhado. Sua composição atua, ainda, como linguagem visual e simbólica, contribuindo para a construção da atmosfera da refeição e para a percepção de cuidado e intencionalidade no ato de servir.
Possivelmente, um dos maiores luxos contemporâneos seja justamente esse: sentar-se sem pressa, compartilhar comida com significado e redescobrir valor nos pequenos rituais do cotidiano.

Referência Bibliográfica:
SAVARIN, Jean Anthelme Brillat-. A fisiologia do gosto. Tradução de Paulo Neves. 2 ed. São Paulo: Companhia de Mesa, 2017.
Por Amandha Silveira – Gastróloga, Sommeliére e colunista de gastronomia
Instagram: @amandhassilveira | www.amandhasilveira.com.br
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