Notas de Sabor

Da origem europeia à consagração argentina: Malbec

A trajetória da uva que une estrutura, maciez e afinidade com o paladar brasileiro

Há vinhos que impressionam. Outros, acolhem. A Malbec — tão querida entre os brasileiros — traduz, na taça, a sensação de um abraço. Intensa sem ser áspera, estruturada sem perder a maciez, revela algo que reconhecemos no nosso próprio modo de comer: a preferência por sabores marcantes que, ainda assim, confortam.

E talvez não haja momento mais simbólico para falar dela do que agora: em 17 de abril, celebra-se o Dia Mundial da Malbec — uma data que homenageia não apenas a uva, mas toda a cultura que se construiu ao redor dela.

Originária do sudoeste da França, hoje, a Uva Malbec, é estrela maior da vitivinicultura na Argentina. Sob sol abundante, altitude e amplitude térmica, desenvolve vinhos de cor profunda, com aromas que evocam frutas negras maduras — ameixa, amora — envoltas por notas de especiarias, chocolate e, por vezes, um delicado tostado. Em boca, revela taninos aveludados, acidez equilibrada e um conjunto que convida ao próximo gole, sem pressa, como uma boa conversa.

  

Vinho tinto Catena Malbec 2023, da renomada vinícola argentina Bodega Catena Zapata, região de Mendonza Reprodução
   

Talvez seja justamente essa capacidade de equilibrar presença e gentileza que explique sua afinidade com o paladar brasileiro. Versátil à mesa, encontra nas carnes vermelhas um de seus encontros mais clássicos. Do churrasco brasileiro à parrilla argentina, há um diálogo evidente entre a suculência da carne e a estrutura do vinho. Mas é na simplicidade cotidiana que essa uva revela sua força mais bonita.

Pensando a cozinha como extensão da memória — esse território onde técnica e afeto se encontram — uma harmonização despretensiosa traduz com precisão o espírito da Malbec: um picadinho de carne. Desses que perfumam a casa e anunciam que há comida de verdade sendo feita. A carne, bem dourada, encontra na própria gordura o contraponto ideal para os taninos do vinho.

Não há aqui complexidade desnecessária. Há intenção. Há gesto. No encontro entre uma taça de Malbec e um prato cotidiano, existe algo maior do que a soma dos elementos: existe pertencimento. E talvez seja justamente isso que, no fim, buscamos à mesa.

  

Picadinho de carne acompanhado de vinho
   

Receita para harmonização — Picadinho de carne

Ingredientes

400g de coxão mole bovino em cubos pequenos

3 dentes de alho amassados

Azeite extra virgem

Sal e pimenta do reino à gosto

1 colher de sopa de manteiga

1 cebola picadinha

1 colher de sopa de farinha de trigo

1 xícara de molho de tomate

1 xícara de água quente

1 folha de louro

Sal e pimenta do reino à gosto

Cheiro-verde para finalizar

Modo de preparo

Tempere os cubos de carne com sal e pimenta-do-reino a gosto. Em uma panela, aqueça um fio de azeite e doure a carne em fogo médio-alto, mexendo aos poucos para que todos os lados fiquem bem selados. Retire a carne da panela e reserve.

Na mesma panela, adicione a manteiga e refogue a cebola picada até ficar macia e levemente dourada. Acrescente o alho amassado e refogue por mais alguns segundos, apenas até perfumar.

Polvilhe a farinha de trigo sobre o refogado e misture bem, cozinhando por cerca de 1 minuto. Em seguida, adicione o molho de tomate e misture. Acrescente, aos poucos, a água quente, mexendo sempre para obter um molho liso e levemente encorpado.

Volte a carne para a panela, adicione a folha de louro e ajuste o sal e a pimenta-do-reino, se necessário. Cozinhe em fogo baixo, com a panela semi-tampada até que a carne esteja macia e o molho bem apurado.

Finalize com cheiro-verde picado e sirva quente, acompanhado de arroz branco, farofa e uma saladinha verde fresca.

Simples, direto e cheio de sentido — como um bom Malbec. Sua estrutura, taninos macios e notas de frutas maduras envolvem a suculência da carne e o molho encorpado, criando uma experiência equilibrada e acolhedora à mesa.

À nossa saúde!

Link vídeo do preparo: https://www.instagram.com/reel/DXNZnIdgY4Y/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==

Por Amandha Silveira - Gastróloga, Sommeliére e colunista de gastronomia

Instagram: @amandhassilveira | www.amandhasilveira.com.br

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