Quinta, 05 de fevereiro de 2026, 17:01
Notas de Sabor

Vinho é frescura ou falta de repertório? Quando a bebida volta a ser experiência à mesa

Entre símbolos e sensações, o vinho revela seu verdadeiro papel quando volta à mesa

Poucas bebidas carregam tantos rótulos simbólicos quanto o vinho. Para alguns, ele representa prazer, memória e convivência. Para outros, ainda é visto como algo “de frescura”, distante, elitizado ou reservado a quem quer demonstrar status. Essa percepção, embora comum, diz muito mais sobre o imaginário construído ao redor do vinho do que sobre o vinho em si.

Antes de ocupar cartas sofisticadas ou adegas climatizadas, o vinho já estava presente na vida cotidiana. Ele nasceu da relação direta entre o homem e a terra, da observação dos ciclos naturais e da necessidade de transformar a colheita em alimento. Por séculos, foi bebida de mesa, parte integrante da refeição, do trabalho e da celebração. Não havia glamour — havia função, cultura e convivência.


Foto: Amandha Silveira O problema começa quando o vinho deixa de ser entendido como alimento e passa a ser tratado apenas como símbolo social. Técnicas, termos estrangeiros e regras rígidas criaram uma barreira invisível que afastou muita gente da taça. Degustar virou, para alguns, um exercício de validação social, quando deveria ser, antes de tudo, uma experiência sensorial. O resultado é a falsa ideia de que gostar de vinho exige conhecimento prévio, investimento alto ou pertencimento a um certo grupo.

Reduzir o vinho a algo fútil ou ostentatório empobrece a experiência gastronômica. Assim como acontece com qualquer ingrediente, o vinho revela seu valor quando colocado em contexto: com a comida, com a ocasião, com as pessoas. Um vinho simples pode ser extraordinário se estiver no momento certo. Um rótulo caro pode ser completamente irrelevante se não houver conexão.

O vinho é, acima de tudo, uma experiência sensorial. Ele fala de aroma, acidez, textura, temperatura. Fala de território, clima e escolhas humanas. E, como toda experiência sensorial, é subjetivo. Não existe certo ou errado absoluto — existe aquilo que agrada, que provoca, que faz sentido para quem consome.

Talvez o maior equívoco seja acreditar que o vinho precisa ser explicado antes de ser vivido. O paladar se constrói ao longo do tempo, por meio da repetição, da curiosidade e da disposição para experimentar. Quando o vinho se transforma em performance ou símbolo social, perde sua função essencial: acompanhar a comida, favorecer o encontro e ampliar a experiência à mesa. Reduzi-lo a frescura ou aparência, empobrece a compreensão de seu verdadeiro papel na gastronomia, que é a possibilidade de explorar sabores, texturas e encontros à mesa. Quanto menos preconceito e formalismo excessivo, mais descoberta e prazer. O vinho, como todo alimento cultural, convida à construção de repertório, permitindo que cada pessoa se conecte com ele à sua maneira, sem estigmas ou validações externas.

À nossa saúde!!!

Por Amandha Silveira – Gastróloga, Sommeliére e colunista de gastronomia
Instagram: @amandhassilveira | www.amandhasilveira.com.br

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