Em A fisiologia do gosto, Jean Anthelme Brillat-Savarin (2017) dizia que “Dize-me o que comes, e te direi quem és”. Talvez por isso eu tenha começado a olhar para os pratos como quem lê pessoas. Há receitas que revelam pressa. Outras, delicadeza. Algumas carregam silêncio; outras, memória de infância, domingos barulhentos e mãos cheias de farinha.
Na cozinha, sempre achei curioso como os ingredientes contam histórias antes mesmo de serem servidos. O doce, às vezes, parece uma tentativa silenciosa de conforto depois de um dia duro demais. Há quem prefira sabores intensos, quase como se procurasse sentir tudo de uma vez. Outros encontram abrigo em preparos delicados, discretos, familiares. Talvez a comida não revele exatamente quem somos — mas, de algum modo, sempre nos denuncia um pouco.
Cozinhar nunca foi apenas executar técnicas para mim. É uma forma de tradução emocional. Foi pensando nisso que nasceu Culinária Poética: uma série onde literatura e gastronomia se encontram à mesa. Não para ilustrar frases bonitas, mas para transformar palavras em experiência sensorial. Porque alguns textos não deveriam apenas ser lidos — deveriam ser provados.

E para começar, escolhi Brillat-Savarin. A frase parecia simples à primeira vista, quase óbvia. Mas quanto mais eu pensava nela, mais entendia que ela fala menos sobre comida e mais sobre identidade. Sobre pertencimento. Sobre memória. Sobre aquilo que escolhemos alimentar em nós.
O prato que imaginei para esse primeiro episódio nasceu dessa reflexão: O prato que escolhi para esse primeiro episódio nasceu de uma combinação que já preparei outras vezes, mas que, de algum modo, sempre parece dizer algo diferente: selim de carneiro no ponto, finalizado com manteiga noisette de limão, sobre homus de fava verde e pimentão assado. Um vinagrete de romã trazendo frescor e acidez. Pangrattato para textura. E, por fim, azeite de hortelã.
Nada nele existe apenas para compor beleza no prato. O carneiro carrega intensidade e presença — um sabor que não tenta ser discreto. A manteiga noisette de limão adiciona profundidade, mas também delicadeza e perfume, como se lembrasse que força e sutileza podem coexistir. O homus de fava verde e pimentão assado traz acolhimento, quase uma sensação de terra, de origem. Já a romã rompe tudo com frescor e acidez inesperada, enquanto o pangrattato acrescenta ruído, contraste.
Talvez tenha sido justamente isso que me lembrou da frase de Brillat-Savarin. Porque identidade também é feita de equilíbrio entre extremos. Entre aquilo que mostramos e aquilo que suavizamos. Entre memória e reinvenção.
Enquanto montava o prato, pensei em como cozinhar, muitas vezes, é uma forma silenciosa de revelar repertório, afetos e até contradições. Nenhuma escolha acontece completamente por acaso — nem na vida, nem na cozinha.
Talvez Brillat-Savarin estivesse certo. E talvez a comida faça isso com delicadeza única: ela não nos traduz por inteiro, mas sempre deixa alguma pista sobre quem somos.
Referencia Bibliográfica:
SAVARIN, Jean Anthelme Brillat-. A fisiologia do gosto. Tradução de Paulo Neves. 2 ed. São Paulo: Companhia de Mesa, 2017.
Por Amandha Silveira – Gastróloga, Sommeliére e colunista de gastronomia
Instagram: @amandhassilveira | www.amandhasilveira.com.br




























































