O Dia Nacional do Chef de Cozinha, celebrado em 13 de maio, costuma ser associado à valorização da técnica, da autoria e da trajetória profissional na gastronomia. É uma data que celebra nomes, percursos e conquistas em um setor que se consolidou como símbolo de criatividade e prestígio. Mas, por trás das homenagens, permanece uma pergunta incômoda: quem é, de fato, reconhecido quando se fala em excelência na cozinha?
Esses dias, ao acompanhar um quadro de Bel Coelho no Instagram, me deparei com uma reflexão potente sobre as múltiplas camadas de violência às quais mulheres estão expostas — especialmente em ambientes profissionais historicamente marcados por assimetrias, como o gastronômico. A partir dali, tornou-se inevitável olhar para a forma como certas ausências também produzem sentido.
No cenário atual, em que se fala cada vez mais sobre protagonismo, autoridade e posicionamento profissional, ainda persistem práticas que caminham na direção oposta: a invisibilização de determinadas vozes, sobretudo quando o reconhecimento não se distribui de forma equitativa.
No campo da gastronomia, essa contradição se evidencia com nitidez. A cozinha, enquanto espaço simbólico e profissional, carrega uma herança histórica em que o fazer culinário foi associado ao feminino no âmbito doméstico, enquanto prestígio, autoria e reconhecimento foram majoritariamente atribuídos a homens no ambiente profissional. Esse deslocamento ajuda a compreender por que, ainda hoje, certas presenças são mais facilmente legitimadas do que outras.
Nesse contexto, os vieses de gênero raramente se apresentam de forma explícita. Eles operam por meio de gestos sutis: na ausência de reconhecimento, na omissão de nomes, na distribuição desigual de visibilidade e na forma como o crédito é atribuído.
São práticas frequentemente naturalizadas, mas que revelam dinâmicas profundas de poder, pertencimento e validação no ambiente de trabalho.
O problema é justamente esse: aquilo que se naturaliza deixa de ser percebido como problema.

Em algum momento, essas dinâmicas deixam de ser externas — e passam a atravessar trajetórias individuais de forma silenciosa. E quando isso acontece, deixam de ser abstratas.
Quando naturalizadas, essas práticas sustentam padrões que, em última instância, configuram formas de assimetrias de gênero no ambiente profissional.
Os impactos são concretos. Em um setor no qual a visibilidade funciona como ativo estratégico — influenciando oportunidades, autoridade técnica e posicionamento de mercado — a falta de reconhecimento deixa de ser apenas simbólica. Ela compromete trajetórias, limita projeções e perpetua um ciclo em que determinadas vozes permanecem à margem, independentemente de sua qualificação.
Justamente por sua natureza difusa, esses mecanismos tornam-se difíceis de identificar no cotidiano. Eles aparecem na desvalorização de contribuições femininas, na atribuição desigual de crédito — frequentemente associando resultados coletivos a figuras masculinas, na exigência contínua de comprovação de competência e no acúmulo de expectativas que ultrapassam a performance técnica.
Isoladamente, podem parecer episódios pontuais. Repetidos, estruturam barreiras reais de crescimento, reconhecimento e permanência.
Discutir os vieses de gênero na cozinha, portanto, não é deslocar o foco da técnica ou da excelência — é ampliá-lo. Trata-se de reconhecer que a construção de uma gastronomia contemporânea mais ética, diversa e representativa passa necessariamente pela revisão dos critérios pelos quais valor, crédito e visibilidade são atribuídos.
E talvez seja justamente aqui que datas como o Dia Nacional do Chef de Cozinha precisem ser tensionadas. Porque celebrar a gastronomia sem olhar para quem permanece invisibilizado é também reforçar os limites do reconhecimento.
Não se trata de proteção por fragilidade, mas de reconhecimento por competência. O que está em pauta não é concessão, e sim alinhamento entre discurso e prática: valorizar, de forma consistente, trajetórias qualificadas e trabalhos efetivamente sólidos.
Diante disso, evidencia-se que ainda há um longo caminho a percorrer — e, sobretudo, discussões que não podem mais ser adiadas.
Por Amandha Silveira – Gastróloga, Sommeliére e colunista de gastronomia
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